sexta-feira, 30 de maio de 2014

Análise Literária


 

ARTIGO COMPARATIVO ENTRE CAMÕES E GLAUCO MATTOSO.
 

RESUMO

Este artigo objetiva analisar a poesia entre duas épocas distintas e na figura de duas personalidades, no caso Luís de Camões e Glauco Mattoso. Os textos escolhidos “Tanta Guerra, Tanto Engano” e “Ditosa Pátria” de Camões pertencem a obra “Os Lusíadas”, enquanto de Mattoso foram escolhidos “Soneto 142 Épico” e “Soneto 240 Barroconcreto”.

 

Palavras-chave: Poesia, Análise Literária, Camões, Glauco Mattoso.

INTRODUÇÃO

Analisando o contexto e biografia dos autores escolhidos, é possível compreender melhor e analisar os poemas como um todo, através dos exercícios praticados na disciplina de Literatura Portuguesa: Poesia, é possível identificar e interpretar as características de cada texto.

BIOGRAFIAS

LUIS DE CAMÕES

Sabe-se muito pouco sobre a vida de Luís Vaz de Camões, há poucas informações a respeito de sua biografia, a data de seu nascimento, por exemplo, é incerta, apenas deduzida a partir de uma Carta de Perdão real em 1553.

Nasceu pobre, pois sua família não possuía grandes posses para época, viveu pobre, por ser um mau administrador de seu rendimento e morreu em igual situação. O único bem que acumulou foi o legado a literatura portuguesa com sua maior obra Os Lusíadas.

Provavelmente estudou, porém não há registro em qualquer universidade. Serviu como soldado em Ceuta (1549-1551) na ocasião perdeu um olho. Regressou a Lisboa em 1552 e ficou preso por oito meses após ter ferido um funcionário da corte. No mesmo ano embarcou para Índia. Serviu então no Oriente como soldado, funcionário e outros cargos.

Regressou a Lisboa em 1569 e no ano seguinte foi encontrado em Moçambique vivendo na penúria.Voltou a Portugal com o auxilio de amigos em 1570.

Em 1572 D, Sebastião recompensou seus serviços no Oriente e sua publicação “Os Lusíadas”.

Camões morreu no ano de 1580, talvez na miséria, porém não há dados precisos quanto a esse fato e muito do que seus contemporâneos contaram mistura-se com lendas e mitos românticos criados em sua vida. Seus restos mortais desapareceram.

Em vida, Camões publicou apenas três poemas líricos, uma ode, um soneto e o poema Os Lusíadas que narra os feitos heróicos portugueses, considerado umas das maiores obras do Renascimento. Algumas de suas peças teatrais também foram apresentadas.

Sua poesia lírica tratava em geral de temas amorosos, constituída por sonetos, tercetos, oitavas, redondilhas, , canções, odes, sextinas, elegias e éclogas. Outros temas como desconcerto do mundo, mudança de tempo ou situações biográfica também aparecem em sua obra.

 

GLAUCO MATTOSO

Pedro José Ferreira da Silva,conhecido como Glauci Mattoso,nasceu em São Paulo em 1951.O pseudônimo Glauco Mattoso vem da palavra glaucoma,causa de sua deficiência visual há muitos anos. Conhecido como "poeta da crueldade", Mattoso seria uma referência ao poeta Gregório de Mattos . Seguidor da métrica de Camões:sonetos decassílabos heróicos rimados em ABBA ABBA CDC DCD. Cursou Biblioteconomia e Letras.Nos anos 70 integrou a chamada "Geração Mimeógrafo" e participou da "Poesia Marginal",um dos baluartes da "resistência cultural" contra a ditadura então vigente. Criou um fanzine poético-satírico chamado Jornal Dobrabil (trocadilho com o Jornal do Brasil e o formato dobrável do panfleto, publicado em folhas avulsas) e colaborou em diversos órgãos da imprensa alternativa, como Lampião (tablóide gay), Pasquim (tablóide humorístico), Escrita (revista literária), Chiclete com Banana (revista de HQ), Top Rock (revista musical), etc. Chegou a fazer crítica literária e ensaio (em livros e no Caderno de Sábado do Jornal da Tarde), mas sempre esteve voltado à cultura underground e aos temas transgressivos, como o sexo bizarro, o sadomasoquismo, a tortura, a violência no rock tribal e, sobretudo, o lado "maldito" da poesia, em seus momentos mais escatológicos e fesceninos.

Com a perda da visão, foi abandonando a criação de cunho visual (concretismo, quadrinhos) para dedicar-se às letras de música e à produção de discos, como sócio duma gravadora independente.

Em colaboração com o professor Jorge Schwartz, da USP, traduziu a poesia de estréia de Borges, o maior autor cego do século.

 A obra poética de Glauco está quase toda inédita ou esparsamentepublicada em livretos esgotados e suplementos ou fanzines e no seu site: http:// glaucomattoso.sites.uol.com.br Bibliografia: Jornal Dobrabil, 1977/1981 (coleção completa em um volume); Revista Dedo Mingo (dois fascículos suplementando o JD); Memórias de Um Pueteiro (poesia, 1982); Línguas na Papa (poesia, 1982); Rockabillyrics (poesia, 1988); Limeiriques (poesia, 1989); Centopéia: Sonetos Nojentos & Quejandos (poesia, 1999); Paulicéia Ilhada (poesia, 1999); Geléia de Rococó: Sonetos Barrocos (poesia, 1999); Panacéia: Sonetos Colaterais (poesia, 2000); O que é Poesia Marginal (ensaio, Ed. Brasiliense, 1981); O que é Tortura (ensaio, Ed. Brasiliense, 1984); O Calvário dos Carecas: História do Trote Estudantil (ensaio, EMW Editores, 1985);A Estrada do Rockeiro: Raízes, Ramos e Rumos do Rock (ensaio, encarte da revista SomTrês, 1988); Dicionarinho do Palavrão Inglês/Português (Ed. Record, 1990); Espírito de 69: A Bíblia do Skinhead (tradução da obra de George Marshall, Trama Editorial, 1993); Manual do Pedólatra Amador: Aventuras & Leituras de Um Tarado por Pés (autobiografia sexual ficcional, 1986); As Aventuras de Glaucomix, o Pedólatra (HQ baseada no Manual do Pedólatra Amador,desenho de Marcatti, 1990).

 

POEMAS

LUÍS DE CAMÕES

TANTA GUERRA, TANTO ENGANO

[LUSÍADAS, CANTO I, 106]

No mar tanta tormenta e tanto dano,

Tantas vezes a morte apercebida;

Na terra tanta guerra, tanto engano,

Tanta necessidade aborrecida!

Onde pode acolher-se um fraco humano,

Onde terá segura a curta vida,

Que não se arme e se indigne o Céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno?

Camões aborda o homem que passa por diversas dificuldades na vida e que vê os perigos de perto, seja no mar, seja na terra. No contexto desse poema o homem é tido com um ser fraco em meio à tanta guerra. O autor ainda utiliza da metáfora “bicho da terra” para reforçar essa questão de um ser indefeso, em certos momentos utiliza também a repetição do adverbio “onde”, afim de indagar sobre a segurança da vida e como encontra-la. Há a menção de céu tudo como sereno e o lugar onde o homem possa ser acolhido. Ainda que os erros sejam inevitáveis para o homem, o autor lembra que o mesmo céu que o acolhe pode rejeita-lo e se armar contra um mero ser.

A estrutura do poema é: A B A B A B C C

DITOSA PÁTRIA

[LUSÍADAS, CANTO III, 20-21(1-4)]

Eis aqui, quase cume da cabeça

De Europa toda, o Reino Lusitano,

Onde a terra se acaba e o mar começa

E onde Febo repousa no Oceano.

Este quis o Céu justo que floreça

Nas armas contra o torpe mauritano,

Deitando-o de si fora; e lá na ardente

África estar quieto o não consente.

 

Esta é a ditosa pátria minha amada,

À qual se o Céu me dá que eu sem perigo

Torne, com esta empresa já acabada,

Acabe-se esta luz ali comigo.

 

Este soneto de Camões aborda os aspectos sociais e geográficos de Portugal, contextualizado com o saudosismo sentido pelo autor, já que passou grande parte da produção da obra Os Lusíadas em Macau, distante do solo português. Fica evidente a lírica e formação A B A B A B C C  -  A B A B.

 

GLAUCO MATTOSO

SONETO 142 ÉPICO (1999)

Lusíadas, Ilíadas, são lidas

por sílabas, por notas, pelo ouvido.

Livradas dos limites, seu sentido

transcende a narração de heroicas lidas.

 

Não lido com aquilo que tu lidas,

embora tantos livros tendo lido.

Em vez de mero Homero, tenho sido

a reencarnação de nulas vidas.

 

De heroico já me basta o metro antigo

que tu me deste e sonho, como forma,

e, assim, comprometido estou contigo.

 

Soneto, oitava, nona, nada é norma.

Mas a mediocridade do que digo

em saga da cegueira se transforma.

 

O poeta Glauco Mattoso utiliza a forma mais universal dos sonetos que é o soneto petrarquiano , composto por dois quartetos e dois tercetos em versos decassílabos heróicos, o mesmo possui a divisão de rima: A B B A A B B A C D C D C D. Glauco Mattoso ainda cita os poemas épicos de Camões - Os Lusíadas- e o poema de Homero - Ilíadas. Fica evidente nesse poema que Glauco é um seguidor da métrica de Camões.

 

SONETO 240 BARROCONCRETO (1999)

Silvícolas cultivam terra aguada.

Ar puro, mar azul, fartura quente.

O verde acolhe os olhos e, silente,

desdobra-se na sílaba molhada.

 

A mata a vaga alaga, e lá se nada.

Na grota sobra a luz sobrevivente.

Da guerra brota a cruz da nossa gente.

Brasil, assim a missa sela e brada.

 

Semeia o grão, a prole, até a colheita.

Rebanhos cria, acorda proletário.

Saqueia, pilha e dorme. Come e deita.

 

Nascente, o afluente, o tributário.

O rio poluído, a paz suspeita.

O traço de Brasília, agreste aquário.

 

O poema reflete sobre os aspectos da pátria brasileira, há referencias intertextuais sobre o descobrimento do Brasil e a primeira missa aqui celebrada. A poesia inicialmente retrata as belezas naturais e seu primeiro aspecto, conforme o poema evolui para sua finalização, o Brasil retratado também se modifica, passando para a realidade atual, rios poluídos, paz suspeita (referencia a suposta segurança que o cidadão possui ao se trancar em casa e se proteger contra o crime) e uma Brasília que serve apenas de cartão postal, ícone a ser visto como um agreste aquário.

Seguindo a estética petrarquiana, o poema possui divisão rítmica A B B A   A B B A  C D C   D C D.


CONCLUSÃO


Dois ícones da poesia em países distintos, responsáveis por divulgarem a poesia na língua portuguesa e a fazerem com qualidade e estilo diferenciado apresentam diversos pontos em comum. 

Ambos se tornaram ícones de rupturas de regras e notoriedade. Em sociedades de épocas diferentes foram capazes de apresentarem novas idéias e questionarem a todos por sua postura diante dos diversos fatos sociais. Ainda que possuíssem personalidades distintas, sendo que Camões muitas vezes encarnou o aspecto de pobreza, vagabundagem, cadeia, abandono... Já Glauco Mattoso ressalta esses aspectos de forma natural, introduzindo em sua poesia reflexões, questionamentos, erotismo e linguajar cotidiano.

 Os poemas escolhidos para esse trabalho apresentam também uma análise do mundo, dos sentidos que movem o homem, suas paixões e comportamento.

O mesmo homem que reflete sobre o homem, guerras e sobre sua pátria, é o mesmo que pensa nos heróis do passado e se questiona quanto a importância de cada um deles em sua vida. A similariedade na poesia de Mattoso e Camões está em tratar o homem como um homem, repleto de defeitos, desejos, sonhos... pecados e bênçãos que o tornam ainda mais humano e sujeito a falhas.

Esses poemas são também apreciados quanto a sua construção, versos e palavras escolhidas a dedo, um em estilo regular com métricas e rimas.

 

 

 


REFERENCIAS


 

CAMÕES, Luis de. Versos e alguma prosa de Luís de Camões. Edição da Fundação Calouste Gulbenkian organizada e executada por Moraes Editores, 1977.

CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. 3ª ed. – São Paulo: Martin Claret, 2012. – (Coleção a obra-prima de cada autor; 33)

MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. 27ª ed. – São Paulo – Cultrix.2006.

 

Sites

http://www.uel.br/pos/letras/EL/vagao/EL9Art3.pdf Acesso 28/05/2014

http://revistacult.uol.com.br/home/2013/03/glauco-mattoso-o-anjo-de-botas-carcomidas/ Acesso 28/05/2014

http://www.triplov.com/poesia/glauco_mattoso/index.html Acesso 28/05/2014

http://www.elsonfroes.com.br/senetario/mattoso.htm Acesso 28/05/2014

http://www.germinaliteratura.com.br/gm.htm  Acesso 28/05/2014