ARTIGO
COMPARATIVO ENTRE CAMÕES E GLAUCO MATTOSO.
RESUMO
Este artigo objetiva analisar a poesia entre
duas épocas distintas e na figura de duas personalidades, no caso Luís de
Camões e Glauco Mattoso. Os textos escolhidos “Tanta Guerra, Tanto Engano” e
“Ditosa Pátria” de Camões pertencem a obra “Os Lusíadas”, enquanto de Mattoso
foram escolhidos “Soneto 142 Épico” e “Soneto 240 Barroconcreto”.
Palavras-chave:
Poesia, Análise Literária, Camões, Glauco Mattoso.
INTRODUÇÃO
Analisando o contexto e biografia dos autores
escolhidos, é possível compreender melhor e analisar os poemas como um todo,
através dos exercícios praticados na disciplina de Literatura Portuguesa:
Poesia, é possível identificar e interpretar as características de cada texto.
BIOGRAFIAS
LUIS
DE CAMÕES
Sabe-se muito pouco sobre a vida de Luís Vaz
de Camões, há poucas informações a respeito de sua biografia, a data de seu
nascimento, por exemplo, é incerta, apenas deduzida a partir de uma Carta de
Perdão real em 1553.
Nasceu pobre, pois sua família não possuía
grandes posses para época, viveu pobre, por ser um mau administrador de seu
rendimento e morreu em igual situação. O único bem que acumulou foi o legado a
literatura portuguesa com sua maior obra Os Lusíadas.
Provavelmente estudou, porém não há registro
em qualquer universidade. Serviu como soldado em Ceuta (1549-1551) na ocasião
perdeu um olho. Regressou a Lisboa em 1552 e ficou preso por oito meses após
ter ferido um funcionário da corte. No mesmo ano embarcou para Índia. Serviu
então no Oriente como soldado, funcionário e outros cargos.
Regressou a Lisboa em 1569 e no ano seguinte
foi encontrado em Moçambique vivendo na penúria.Voltou a Portugal com o auxilio
de amigos em 1570.
Em 1572 D, Sebastião recompensou seus
serviços no Oriente e sua publicação “Os Lusíadas”.
Camões morreu no ano de 1580, talvez na
miséria, porém não há dados precisos quanto a esse fato e muito do que seus
contemporâneos contaram mistura-se com lendas e mitos românticos criados em sua
vida. Seus restos mortais desapareceram.
Em vida, Camões publicou apenas três poemas
líricos, uma ode, um soneto e o poema Os Lusíadas que narra os feitos heróicos
portugueses, considerado umas das maiores obras do Renascimento. Algumas de
suas peças teatrais também foram apresentadas.
Sua poesia lírica tratava em geral de temas
amorosos, constituída por sonetos, tercetos, oitavas, redondilhas, , canções,
odes, sextinas, elegias e éclogas. Outros temas como desconcerto do mundo,
mudança de tempo ou situações biográfica também aparecem em sua obra.
GLAUCO
MATTOSO
Pedro José Ferreira da Silva,conhecido como
Glauci Mattoso,nasceu em São Paulo em 1951.O pseudônimo Glauco Mattoso vem da
palavra glaucoma,causa de sua deficiência visual há muitos anos. Conhecido como
"poeta da crueldade", Mattoso seria uma referência ao poeta Gregório
de Mattos . Seguidor da métrica de Camões:sonetos decassílabos heróicos rimados
em ABBA ABBA CDC DCD. Cursou Biblioteconomia e Letras.Nos anos 70 integrou a
chamada "Geração Mimeógrafo" e participou da "Poesia
Marginal",um dos baluartes da "resistência cultural" contra a
ditadura então vigente. Criou um fanzine poético-satírico chamado Jornal
Dobrabil (trocadilho com o Jornal do Brasil e o formato dobrável do panfleto,
publicado em folhas avulsas) e colaborou em diversos órgãos da imprensa alternativa,
como Lampião (tablóide gay), Pasquim (tablóide humorístico), Escrita (revista
literária), Chiclete com Banana (revista de HQ), Top Rock (revista musical),
etc. Chegou a fazer crítica literária e ensaio (em livros e no Caderno de
Sábado do Jornal da Tarde), mas sempre esteve voltado à cultura underground e
aos temas transgressivos, como o sexo bizarro, o sadomasoquismo, a tortura, a
violência no rock tribal e, sobretudo, o lado "maldito" da poesia, em
seus momentos mais escatológicos e fesceninos.
Com a perda da visão, foi abandonando a
criação de cunho visual (concretismo, quadrinhos) para dedicar-se às letras de
música e à produção de discos, como sócio duma gravadora independente.
Em colaboração com o professor Jorge
Schwartz, da USP, traduziu a poesia de estréia de Borges, o maior autor cego do
século.
A obra
poética de Glauco está quase toda inédita ou esparsamentepublicada em livretos
esgotados e suplementos ou fanzines e no seu site: http://
glaucomattoso.sites.uol.com.br Bibliografia: Jornal Dobrabil, 1977/1981
(coleção completa em um volume); Revista Dedo Mingo (dois fascículos
suplementando o JD); Memórias de Um Pueteiro (poesia, 1982); Línguas na Papa
(poesia, 1982); Rockabillyrics (poesia, 1988); Limeiriques (poesia, 1989);
Centopéia: Sonetos Nojentos & Quejandos (poesia, 1999); Paulicéia Ilhada
(poesia, 1999); Geléia de Rococó: Sonetos Barrocos (poesia, 1999); Panacéia:
Sonetos Colaterais (poesia, 2000); O que é Poesia Marginal (ensaio, Ed.
Brasiliense, 1981); O que é Tortura (ensaio, Ed. Brasiliense, 1984); O Calvário
dos Carecas: História do Trote Estudantil (ensaio, EMW Editores, 1985);A
Estrada do Rockeiro: Raízes, Ramos e Rumos do Rock (ensaio, encarte da revista
SomTrês, 1988); Dicionarinho do Palavrão Inglês/Português (Ed. Record, 1990);
Espírito de 69: A Bíblia do Skinhead (tradução da obra de George Marshall,
Trama Editorial, 1993); Manual do Pedólatra Amador: Aventuras & Leituras de
Um Tarado por Pés (autobiografia sexual ficcional, 1986); As Aventuras de
Glaucomix, o Pedólatra (HQ baseada no Manual do Pedólatra Amador,desenho de
Marcatti, 1990).
POEMAS
LUÍS DE CAMÕES
TANTA GUERRA, TANTO ENGANO
[LUSÍADAS, CANTO I, 106]
No
mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas
vezes a morte apercebida;
Na
terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta
necessidade aborrecida!
Onde
pode acolher-se um fraco humano,
Onde
terá segura a curta vida,
Que
não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra
um bicho da terra tão pequeno?
Camões aborda o homem que passa por diversas
dificuldades na vida e que vê os perigos de perto, seja no mar, seja na terra.
No contexto desse poema o homem é tido com um ser fraco em meio à tanta guerra.
O autor ainda utiliza da metáfora “bicho da terra” para reforçar essa questão
de um ser indefeso, em certos momentos utiliza também a repetição do adverbio
“onde”, afim de indagar sobre a segurança da vida e como encontra-la. Há a
menção de céu tudo como sereno e o lugar onde o homem possa ser acolhido. Ainda
que os erros sejam inevitáveis para o homem, o autor lembra que o mesmo céu que
o acolhe pode rejeita-lo e se armar contra um mero ser.
A estrutura do poema é: A B A B A B C C
DITOSA PÁTRIA
[LUSÍADAS, CANTO III,
20-21(1-4)]
Eis
aqui, quase cume da cabeça
De
Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde
a terra se acaba e o mar começa
E
onde Febo repousa no Oceano.
Este
quis o Céu justo que floreça
Nas
armas contra o torpe mauritano,
Deitando-o
de si fora; e lá na ardente
África
estar quieto o não consente.
Esta
é a ditosa pátria minha amada,
À
qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne,
com esta empresa já acabada,
Acabe-se
esta luz ali comigo.
Este soneto de Camões aborda os aspectos
sociais e geográficos de Portugal, contextualizado com o saudosismo sentido
pelo autor, já que passou grande parte da produção da obra Os Lusíadas em
Macau, distante do solo português. Fica evidente a lírica e formação A B A B A
B C C -
A B A B.
GLAUCO MATTOSO
SONETO 142 ÉPICO (1999)
Lusíadas,
Ilíadas, são lidas
por
sílabas, por notas, pelo ouvido.
Livradas
dos limites, seu sentido
transcende
a narração de heroicas lidas.
Não
lido com aquilo que tu lidas,
embora
tantos livros tendo lido.
Em
vez de mero Homero, tenho sido
a
reencarnação de nulas vidas.
De
heroico já me basta o metro antigo
que
tu me deste e sonho, como forma,
e,
assim, comprometido estou contigo.
Soneto,
oitava, nona, nada é norma.
Mas
a mediocridade do que digo
em
saga da cegueira se transforma.
O poeta Glauco Mattoso
utiliza a forma mais universal dos sonetos que é o soneto petrarquiano ,
composto por dois quartetos e dois tercetos em versos decassílabos heróicos, o
mesmo possui a divisão de rima: A B B A A B B A C D C D C D. Glauco Mattoso
ainda cita os poemas épicos de Camões - Os Lusíadas- e o poema de Homero -
Ilíadas. Fica evidente nesse poema que Glauco é um seguidor
da métrica de Camões.
SONETO 240 BARROCONCRETO
(1999)
Silvícolas
cultivam terra aguada.
Ar
puro, mar azul, fartura quente.
O
verde acolhe os olhos e, silente,
desdobra-se
na sílaba molhada.
A
mata a vaga alaga, e lá se nada.
Na
grota sobra a luz sobrevivente.
Da
guerra brota a cruz da nossa gente.
Brasil,
assim a missa sela e brada.
Semeia
o grão, a prole, até a colheita.
Rebanhos
cria, acorda proletário.
Saqueia,
pilha e dorme. Come e deita.
Nascente,
o afluente, o tributário.
O
rio poluído, a paz suspeita.
O
traço de Brasília, agreste aquário.
O poema reflete sobre os aspectos da pátria
brasileira, há referencias intertextuais sobre o descobrimento do Brasil e a
primeira missa aqui celebrada. A poesia inicialmente retrata as belezas
naturais e seu primeiro aspecto, conforme o poema evolui para sua finalização,
o Brasil retratado também se modifica, passando para a realidade atual, rios
poluídos, paz suspeita (referencia a suposta segurança que o cidadão possui ao
se trancar em casa e se proteger contra o crime) e uma Brasília que serve
apenas de cartão postal, ícone a ser visto como um agreste aquário.
Seguindo a estética petrarquiana, o poema
possui divisão rítmica A B B A A B B
A C D C
D C D.
CONCLUSÃO
Dois ícones da poesia em países distintos,
responsáveis por divulgarem a poesia na língua portuguesa e a fazerem com
qualidade e estilo diferenciado apresentam diversos pontos em comum.
Ambos se tornaram ícones de rupturas de
regras e notoriedade. Em sociedades de épocas diferentes foram capazes de
apresentarem novas idéias e questionarem a todos por sua postura diante dos
diversos fatos sociais. Ainda que possuíssem personalidades distintas, sendo
que Camões muitas vezes encarnou o aspecto de pobreza, vagabundagem, cadeia,
abandono... Já Glauco Mattoso ressalta esses aspectos de forma natural,
introduzindo em sua poesia reflexões, questionamentos, erotismo e linguajar
cotidiano.
Os
poemas escolhidos para esse trabalho apresentam também uma análise do mundo,
dos sentidos que movem o homem, suas paixões e comportamento.
O mesmo homem que reflete sobre o homem,
guerras e sobre sua pátria, é o mesmo que pensa nos heróis do passado e se
questiona quanto a importância de cada um deles em sua vida. A similariedade na
poesia de Mattoso e Camões está em tratar o homem como um homem, repleto de
defeitos, desejos, sonhos... pecados e bênçãos que o tornam ainda mais humano e
sujeito a falhas.
Esses poemas são também apreciados quanto a
sua construção, versos e palavras escolhidas a dedo, um em estilo regular com
métricas e rimas.
REFERENCIAS
CAMÕES,
Luis de. Versos e alguma prosa de Luís de
Camões. Edição da Fundação Calouste Gulbenkian organizada e executada por
Moraes Editores, 1977.
CAMÕES,
Luís de. Os Lusíadas. 3ª ed. – São Paulo: Martin Claret, 2012. – (Coleção a obra-prima
de cada autor; 33)
MOISÉS,
Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. 27ª ed. – São Paulo –
Cultrix.2006.
Sites
http://www.uel.br/pos/letras/EL/vagao/EL9Art3.pdf
Acesso 28/05/2014
http://revistacult.uol.com.br/home/2013/03/glauco-mattoso-o-anjo-de-botas-carcomidas/
Acesso 28/05/2014
http://www.triplov.com/poesia/glauco_mattoso/index.html
Acesso 28/05/2014
http://www.elsonfroes.com.br/senetario/mattoso.htm
Acesso 28/05/2014
http://www.germinaliteratura.com.br/gm.htm Acesso 28/05/2014